Pós-graduação em Ensino de Língua Portuguesa

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terça-feira, 20 de abril de 2010

O diário – características

O diário é um gênero textual que geralmente tem como leitor o próprio autor. Relata fatos do cotidiano ou impressão produzidas por eles, pensamentos, observações, opiniões, ideias, sentimentos, segredos, etc. tem uma estrutura livre, normalmente é datado e pode ou não ser dirigido a alguém. É escrito geralmente na 1ª pessoa. Os verbos podem estar no presente e/ou no passado. A linguagem varia de acordo com o locutor, podendo ser formal ou informal, na variedade padrão ou em uma variedade não padrão. A assinatura é facultativa.

O texto a seguir é um trecho do diário de Janina. Esta página foi escrita depois que a autora, sua mãe e sua irmã juntam-se a outros refugiados que deixam Varsóvia e deportados para zona rural.

20 de outubro de 1944

Ainda estamos vivas. E juntas. Por aqui tudo é tão tranquilo e tão seguro que é difícil acreditar que todo o nosso passado recente seja real. Será que pesadelo acabou? Será que vamos viver assim até o fim da guerra e finalmente sobreviver? Durante o dia, quando o sol brilha através do minúsculo quadrado de nossa janela, eu penso que sim, é isso, nós escapamos. Mas quando acordo no meio da noite, imagens horripilantes retornam como uma torrente, o medo me arrepia a alma e não consigo voltar a dormir. Então começo a pensar em nossa vida atual, em como nossa situação é de fato incerta e como estamos longe de nos sentirmos seguras. Porque eles ainda estão aqui, embora não se fale muito sobre isso. Estão aqui, mandando nesta tranquila zona rural, nestas pessoas que nos abrigaram sob o seu teto. E só estamos aqui porque eles ordenaram que os granjeiros locais acolhessem os deportados, da mesma forma que os obrigaram a entregar parte de seu gado para o Terceiro Reich. Os nazistas podem estar perdendo batalhas a oeste, podem estar feridos de morte ao leste, mas aqui exatamente eles estão em pleno comando. E assim, a qualquer dia ou noite este período de tranquilidade pode facilmente chegar a um fim abrupto. Vamos supor que alguém na aldeia deteste judeus, ou tenha uma desavença com a família que nos abriga, ou deseje receber uma recompensa. Aposto que essa senhora e seus filhos não imaginam quem somos. Talvez nem mesmo consigam identificar um judeu pela aparência. Espero que não sejam fuzilados se os nazistas chegarem até nós. Afinal, só estão fazendo o que foram obrigados a fazer – acolher refugiados de Varsóvia. E é isso que somos, refugiados de Varsóvia.

Sei que manter meu diário significa assumir um grande e desnecessário risco – ele contém a afirmação, preto no branco, de tudo aquilo que estamos tentando esconder. Mas não quero que minhas experiências caiam no esquecimento, de modo que continuarei escrevendo, se não para a posteridade, ao menos para mim mesma. Agora vou enterrá-lo no fundo do catre e dormir por cima dele.

(janina Bauman. Inverno na manhã – Uma jovem no gueto de Varsóvia. Rio de Janeiro: Joge Zahar, 2005. P. 205-6.)




Os diários como documentos históricos

Um diário pode se tornar um documento de grande valor histórico por registrar o dia-a-dia de uma pessoa que viveu uma época de guerra, de fome, de conflitos sociais, etc. É o caso, por exemplo, do diário de Janina Bauman e também do Diário de Anne Frank, ambos amargos testemunhos da Segunda Guerra Mundial. Anne Frank também era judia e, nessa época, viveu escondida com sua família, durante dois anos, no sótão de um prédio, em Amsterdã, Holanda. Descobertos pelo Gestapo, todos foram mortos, com exceção do pai, que, após a guerra, publicou o diário da filha.

Em 1993-4, foi publicado O diário de Zlata – A vida de uma menina na guerra. Sua autora, outra menina, Zlata Filipovic, também narra os horrores da guerra, dessa vez na Bósnia.

(Cereja, William Roberto, Magalhães, Thereza Cochar. – 4. Ed. – São Paulo: Atual, 2006.)

Josenaide Souto

3 comentários:

  1. muito bom adorei.
    Pena que ela viveu muitas coisas.E gracas a Deus que ela conseguiu sobreviver.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. qual o contexto de circulação do diario

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